Jornalismo apura apenas o conveniente e informações são jogadas para sociedade

 

Em meus quatro anos de faculdade, além dos períodos que passei de estágio em assessorias, portais de notícias e revistas, o essencial para um bom trabalho jornalístico era, e sempre foi, a apuração dos fatos antes da produção da notícia e da publicação da mesma. No jornalismo de hoje, a falta de apuração, ou a apuração “conveniente”, mostra que nem todos os fatos e versões são importantes para a publicação de uma notícia tendenciosa ou partidária.

A discussão da vez é a aposentadoria da presidente “impechemada” Dilma Rousseff. Dilma fez uma solicitação de aposentadoria no INSS e foi “atacada” pela redação da Revista Época. Segundo a reportagem da revista, Dilma “furou a fila” na hora de conseguir a aposentadoria e adquiriu o benefício “24 horas depois do processo de impeachment”. O caso fez com o INSS afastasse os funcionários responsáveis pela aposentadoria de Dilma, Fernanda Cristina dos Santos e Iracemo da Costa Coelho.

A reportagem trata, entre outros assuntos, da ajuda do ex-ministro Carlos Gabas no processo, mas não deixa claro quando Dilma fez a solicitação. Nenhuma data é divulgada pela revista, apenas o fato de que Dilma conseguiu o benefício logo após o impeachment é citado. O caso é investigado pelos diretores do INSS, mas “teorias da conspiração” já colocam a reportagem da Época em xeque.

Vários sites e portais repercutiram o fato de sua maneira, tratando o assunto como “absurdo” ou tentando entender do que a notícia da Época se tratava. A assessoria de Dilma divulgou uma nota posteriormente repudiando a reportagem da revista dizendo que nada foi feito com irregularidade. Confira:

A respeito do texto noticioso “Aposentadoria a jato”, publicado por Época neste sábado, 1º de Outubro, a Assessoria de Imprensa de Dilma Rousseff esclarece:

1) Diferentemente do que insinua a revista Época, ao dar um tom escandaloso para o pedido de aposentadoria de Dilma Rousseff, não houve qualquer tipo de concessão ou tratamento privilegiado à ex-presidenta da República.

2) O texto publicado por Época dá ares de farsa à aposentadoria de Dilma ao insinuar que a ficha cadastral dela teria sido adulterada de maneira suspeita, dentro de uma agência do INSS, ainda no ano passado. Isso é um desrespeito à ex-presidenta, cuja honestidade nem mesmo seus adversários questionam.

3) Todas as alterações feitas no cadastro tiveram como objetivo comprovar os vínculos empregatícios da ex-presidenta ao longo dos últimos 40 anos como funcionária pública. Auditoria do INSS poderá constatar que não houve quaisquer irregularidades.

4) A regra para aposentadoria exige no mínimo 85 pontos para ser concedida à mulher, na soma da idade mais tempo de contribuição. Dilma Rousseff atingiu 108 pontos, pelo fato de ter contribuído por 40 anos como servidora pública e chegado aos 68 anos de idade.

5) Diante disso, ela decidiu aposentar-se e recorreu, por meio de procuração a pessoa de sua confiança, a uma agência do INSS a fim de entrar com o pedido. O ex-ministro Carlos Gabas acompanhou.

6) Infelizmente, o jornalismo de guerra adotado pelas Organizações Globo e seus veículos demonstra que a perseguição a Dilma Rousseff prosseguirá como estratégia de assassinato de reputação, tendo como armas a calúnia e a difamação.

7) A verdade irá prevalecer contra mais esta etapa da campanha sórdida movida por parte da imprensa golpista contra Dilma Rousseff.

8) Os advogados de Dilma Rousseff avaliam os procedimentos jurídicos a serem adotados contra Época, seu editor-chefe e o repórter para reparar injustiças e danos à sua imagem pública.

A nota repudia o “jornalismo de guerra” que, como foi dito no começo deste texto, apura o que convém e noticia aquilo que escandaliza. A Federação Nacional de Sindicatos em Saúde e Previdência Social (Fenasps) também emitiu uma nota falando do assunto e defendendo os funcionários demitidos:

Os trabalhadores do Seguro Social de todo País estão indignados com a forma desrespeitosa como esta sendo tratada a denuncia feita pela Revista Época sobre o atendimento feito a ex-presidente Dilma, que teria sido “beneficiada irregularmente em atendimento feito na agencia do INSS 502 – Sul em Brasília, onde requereu sua aposentadoria, sendo atendida antecipadamente fora da lista de espera”.

No entanto o Secretario Executivo do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário Alberto Beltrame, apesar de não ter feito apuração das acusações da referida revista, publica nota fazendo “acusações aos servidores Fernanda Cristina dos Santos e Iracemo da Costa Coelho atual gerente da APS 502 – Sul, segundo o secretario são suspeitos de terem cometidos irregularidades na analise do processo de contagem de tempo e atendimento feito a ex-presidente Dilma, e, portanto serão exonerados”.

A Federação Nacional de Sindicatos em Saúde e Previdência Social repudia a atitude do Secretario Alberto Beltrame e exige imediata apuração de todos os fatos envolvendo esta situação da aposentadoria da ex-presidente, mas em restrita obediência aos procedimentos previstos no Regime Jurídico Único e normas legais, pois desta forma estará a assegurando o ampla defesa a todos os trabalhadores, que foram sumariamente acusados e julgados pela exposição publica feita pelo Ministério do Desenvolvimento Social, antes mesmo de instaurar a sindicância e ou processo administrativo disciplinar para apurar a verdade. Exigimos ainda que seja investigado como foi quebrado o sigilo do processo desta segurada, que teve seus dados extraídos do cadastro do INSS e vazados a imprensa com objetivo de criar fatos políticos. Os servidores do INSS cumpriram suas funções como estabelece a lei e a constituição e não podem ficar a mercê dos mesquinhos interesses políticos, sem estarem envolvidos nesta disputa sórdida da política brasileira.

Estamos solidários aos trabalhadores do INSS não aceitaremos que sejam acusados de fatos que sequer foram apurados, nem envolvidos nesta disputa inter partidárias, iremos acompanhar de perto as investigações dando apoio a todos os servidores que foram involuntariamente envolvidos nesta trama. E vamos apresentar denuncias aos órgãos de controle, CGU, AGU e TCU e Comissão de Ética da Presidência da Republica, para apurar os fatos e investigar as atitudes intempestivas do ministro e sua equipe, assegurando que os servidores do INSS sejam respeitados em seus direitos. Fazendo deste um processo pedagógico para os agentes públicos que ocupam cargos de ministros e também no alto escalão em ministérios, aprenderem a agir sempre com uma conduta compatível com suas atribuições no espírito do Estado Republicano.

Ao que parece temos um desencontro de informações da revista com os outros veículos citados. Ao se analisar a notícia da Época, nota-se que o jornalista em questão não cita de onde tirou a informação e parece que ficou a espreita, na porta do prédio do INSS, esperando que Dilma fosse ao local.

“Menos de 24 horas depois do impeachment, um de seus aliados mais próximos, o petista Carlos Eduardo Gabas, entrou pelos fundos da Agência da Previdência Social do Plano Piloto, na Quadra 502 da Asa Sul de Brasília. Acompanhado de uma mulher munida de uma procuração em nome de Dilma, Gabas passou por uma porta de vidro em que um adesivo azul-real estampava uma mão espalmada com o aviso: ‘Acesso apenas para servidores’.”, diz a reportagem.

Ao longo da reportagem é possível perceber que o teor do texto está mais para uma crônica do que qualquer outra coisa. O tempo de espera, segundo a reportagem, é de 74 dias em outras cidades e de 115 dias no Distrito Federal para a concessão da aposentadoria. A própria reportagem aponta que Fernanda, responsável pela aposentadoria, já tinha a solicitação “há meses” e que algumas alterações, no total 17, foram feitas para que a documentação não tivesse irregularidade. No dia 1º de setembro, Dilma foi chamada ao INSS e saiu de lá aposentada.

O Portal GGN informou que, após contato com Fernanda, a solicitação de aposentadoria de Dilma ocorreu em dezembro de 2015 e que, portanto, já havia extrapolado os 115 dias de espera.

Tudo teve início, portanto, em 12 de dezembro de 2015, quando Fernanda começou a elaborar “relatório informando que o cadastro previdenciário da Sra. Dilma Roussef necessitava de acertos tanto quanto aos dados cadastrais como a eventos previdenciários. Era necessário correção do nome da pessoa e confirmação de alguns vínculos de emprego mediante a apresentação da carteira de trabalho ou certidões de entidades da qual tinha prestado serviço.”

O caso ainda é investigado pelo INSS, mas os funcionários foram exonerados do cargo esta semana. A reportagem tendenciosa conseguiu demitir duas pessoas que não tem nada a ver com o caos político. E continuamos a sofrer com a “imprensa marrom que tanto amamos”.

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